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Thursday, July 12, 2012

Voskopojë

Igreja de São Nicolau numa nevada manhã de Março



Nos seus píncaros, em meados do Século XVIII, esta cidade era sede da única editora dos Balcãs fora de Istambul, e ali também se encontravam escolas, e várias igrejas Ortodoxas Gregas que a tornavam num dos centros da cultura grega.
É difícil de imaginar que a pequena cidade de Voskopojë, antiga Moscopole, tenha sido ainda o principal centro cultural e comercial do povo Aromeno e ser actualmente apenas um pequeno município do distrito de Korçe, situado no alto das montanhas no leste da Albânia a 1160 metros de altitude.



 História

Apesar de estar localizada num local isolado no alto das montanhas a mais de 1000 metros de altitude a antiga cidade de Moscopole foi o mais importante centro civilizacional do povo aromeno. Moscopole era uma pequena colónia até ao final do Século XVII altura em que começou a registar um grande desenvolvimento económico e cultural, tornando-se numa das maiores cidades dos Balcãs no Século XVIII.


                               Centro da cidade de Voskopoje com o monumento aos soldados comunistas da cidade

A população da cidade falava aromeno mas muitos habitantes falavam também grego que era a língua utilizada, por exemplo, para escrever contratos. Havia uma editora sediada em Moscopole facto que a tornava na segunda cidade dos Balcãs que possuía uma editora, a outra cidade era Istambul. Na cidade foi publicado em 1770 o primeiro dicionário das quatro línguas balcânicas modernas (Albanês, Grego, Aromeno e Búlgaro). Existiam ainda um orfanato, provavelmente o primeiro no mundo Pos-Bizantino Ortodoxo, e ainda um hospital e 24 igrejas. 

                                                             Mosteiro e uma das igrejas de Voskopoje 

Os historiadores atribuem o declínio da cidade a uma série de violentas incursões de muçulmanos albaneses que quase destruíram a cidade em 1769, facto ao que se seguiu a participação dos residentes na revolta de Orlov em 1770, uma das lutas que antecedeu a luta pela independência da Grécia em 1821. 
Rua nevada de Voskopoje
O abandono e destruição de Moscopole foi em 1788 quando os ataques das tropas Otomanas de Ali Pasha fizeram com que Moscopole passasse de uma cidade próspera para uma pequena aldeia. Como consequência da invasão da cidade esta ficou praticamente destruída e o seu comércio transferiu-se para as cidades de Korçe e Berat sendo que as elites comerciais da cidade se transferiram para a Austria, Hungria, bem como para a região da Transilvânia na Roménia, enquanto os outros sobreviventes foram forçados a emigrar, a maior parte deles para as regiões da Tessália e da Macedónia. Existem todavia teses que apontam que a principal causa do declínio da cidade terá sido a relocalização das rotas comerciais na Europa central e de leste após os ataques supracitados e não apenas a violência dos ataques em si.

Em 1914 Moscopole era parte da República Autónoma da Norte do Epiro e voltou a ser destruída em 1916 na sequência da I Guerra Mundial, sendo que os edifícios que resistiram foram destruídos depois na II Guerra Mundial, primeiro pelas tropas Italianas e depois pelos Nacionalistas Albaneses. 

                                                             Edifícios destruídos desde a I Guerra Mundial
Hoje em dia Moscopole é conhecida como Voskopojë, e trata-se de uma pequena aldeia de montanha, com 2200 pessoas, embora ainda seja considerada um local santo para os Cristãos Ortodoxos, sendo ainda um dos centros principais de onde provém a diáspora aromena.

                           Centro de Voskopoje com o memorial comunista (esq) e o edifício da câmara municipal (dta)

Da parte antiga da cidade sobram apenas 6 igrejas ortodoxas (uma em ruínas), uma ponte e um mosteiro, sendo que as igrejas de Voskopojë estão entre as mais representativas da arte eclesiástica do Século XVIII nos Balcãs, sendo as suas características semelhantes às dos centros monásticos de Monte Athos e de Meteora, na Grécia. No entanto o muito mau estado de conservação em que se encontram as igrejas levaram a que estas fossem incluídas na lista dos 100 monumentos mundiais em perigo.

                            Arcadas da Igreja de São Nicolau com alguns dos frescos visíveis do exterior da igreja
  
Diário de Viagem
 
Visitei a cidade de Voskopojë num frio dia do mês de Março de 2012 após uma visita à cidade de Korçe. A caminhada começou com a visita à igreja de São Nicolau - Kisha e Shen Kollit - cuja entrada estava inacessível devido ao grande volume de neve que bloqueava os acessos à igreja.

 
                                                         A igreja de São Nicolau estava inacessível devido à neve

No caminho de volta ao centro da aldeia era visível como a neve afecta os moradores desta fria cidade mesmo ainda durante o mês de Março. Foi necessário ultrapassar a antiga ponte de pedra de forma a conseguir chegar à Igreja de São Dionisio - Kisha e Shen Dionisi-

                                                         A neve era muita em Voskopoje mesmo sendo Março

A igreja de São Dionisio - Kisha e Shen Dionisi - também se encontrava encerrada devido à imensa neve.

                Igreja de São Dionísio - Kisha e Shen Dionisi (dta) Tunél de Segurança dos tempos de Enver Hoxha (esq)
  
Cavado na montanha logo atrás da Igreja de São Dionísio era visível um túnel de segurança construído pelos comunistas durante o período de Enver Hoxha. A igreja mais próxima da Igreja de São Dionísio era a Igreja de São Athanasius - Kisha e Shen Thanasit. 

                                  Indicação da Igreja de Shen Thanasit (esq) Cemitério da Igreja de São Athanasius (dta)

O acesso às igrejas era verdadeiramente difícil por entre os caminhos nevados e já de si bastante acidentados. A última igreja a que tentei aceder, também sem sucesso, foi a Igreja de São Elias - Kisha e Shen Ilias.  Após o acidentado percurso de forma a visitar as Igrejas de Voskopoje voltei-me a dirigir ao centro da aldeia de forma a conseguir novo transporte até à cidade de Korçe.

       Os caminhos nevados dificultavam o acesso às igrejas de Voskopoje (esq) Igreja de São Ilias - Kisha e Shen Ilias (dta)



Como Chegar

Estrada de acesso a Voskopoje via Korçe
A aldeia de Voskopojë situa-se a cerca de 20 quilómetros de Korçe, sendo por via Korçe a melhor forma de chegar a Voskopoje. Existe uma minivan que faz a ligação Korçe - Voskopoje, num percurso que dura pouco mais de meia hora.

Sunday, July 8, 2012

Korçë


Praça Central de Korçë com a sua grande Catedral Ortodoxa


A cidade de Korçë tem uma população de cerca de 100 mil pessoas e é conhecida por ser a cidade mais fria da Albânia devido a localizar-se a mais de 800 metros de altitude, muito próxima das montanhas Morava. Korçë possui cinco museus, a mais antiga fábrica de cerveja da Albânia, além de muita neve no inverno, sendo que o resort de ski de Dardha, o mais famoso da Albânia, situa-se a cerca de 20 quilómetros da cidade. Anteriormente conhecida por "pequena Paris" devido ao seu grande carácter cultural nos anos trinta, nos dias de hoje terá já perdido o direito a esse título, no entanto conserva ainda um cinema, embora tivesse tido dois nos seus tempos áureos, além de muitos cafés charmosos que contrastam muito com a zona do bazaar onde entre muitos vegetais e frutos se vendem animais vivos em plena rua.


História


Inicialmente habitada e governada pelos Ilírios até sensivelmente ao ano 650 a.c. e posteriormente por tribos gregas da região do Epiro, sendo que também existem registos de uma cidade de "Coviza" durante a era medieval, foi contudo durante a ocupação Otomana da Albânia no Século XV que Iljaz Hoxha sob comando do Sultão Mehmet II desenvolveu a cidade de Korçë.
A ocupação Otomana teve início no ano de 1440 e mais incisivamente três anos depois, após a conquista de Constantinópola. Devido à sua contribuição para a conquista Otomana de Constantinópola Iljaz Bey Mirahor foi recompensado com a cidade de Korçë, contudo esta iria apenas desenvolver-se como uma metrópole após a anexação da importante cidade vizinha de Moscopole pelas tropas albanesas de Ali Pasha em 1788.

                                                       O bazar da cidade é inegavelmente uma herança Otomana

A cidade esteve sob domínio Otomano até ao ano de 1912 mas em 1910 a Aliança Ortodoxa de Korçë liderada por Mihal Grameno proclamou a existência da Igreja Albanesa que as autoridades Otomanas se recusaram, contudo, a reconhecer. A próximidade de Korçë face à Grécia, para quem toda a população Ortodoxa consiste em população grega, fez com que a cidade fosse alvo de disputa durante as Guerras Balcânicas em 1912 - 1913. As tropas gregas capturaram Korçë aos Otomanos no dia 6 de Dezembro de 1912 e pouco tempo depois prenderam os nacionalistas Albaneses da cidade.
Rua de Korçe
A inclusão de Korçë em território Albanês foi fortemente criticada pela Grécia que invocava que a cidade pertencia à região do Norte do Epiro. Isto resultou numa rebelião por parte da população grega da cidade, que chegou a pedir a intervenção do Exército Grego, face aos albaneses liderados por Themistokli Germenji que culminou com a expulsão do bispo Ortodoxo Grego Germanos bem como de outros membros do conselho da cidade a serem presos e/ou expulsos.
Após a assinatura do Protocolo de Corfu em Maio de 1914, a cidade passou a fazer parte da Republica Autónoma do Norte do Epiro estando inserida na região da Albânia, no entanto no dia 10 de Julho de 1914 as forças Gregas tomariam a cidade que assim passaria de novo a estar sob administração Grega.
Este período foi um período anormalmente turbulento devido ao eclodir da I Guerra Mundial cuja uma das frentes, a frente Macedónia, se encontrava bem próxima da cidade.

                                                              Ruas nevadas do centro da fria cidade de Korçe

Devido ao desenvolvimento do conflito, a cidade esteve em mãos francesas entre 1916 e 1920 período em que 14 representantes da cidade de Korçë assinaram, com o Coronel francês Descoins, um protocolo que instituiu a Republika Shqipëtare e Korçës - Republica Autónoma Albanesa de Korçë - que passaria a vigorar sob protecção do Exército Francês e presidência de Themistokli Gërmenji. 
Durante o período supracitado Korçë sofreria enorme influência francesa principalmente ao nivel cultural tendo mesmo sido fundada uma escola francesa na cidade.

                      Algumas das heranças francesas; um edifício estilo clássico (esq) e o primeiro cinema da cidade (dta)

Na sequência da II Guerra Mundial Korçë foi invadida pelas tropas italianas bem como o resto da Albânia. Os italianos sairiam da cidade em 1940 após a Guerra Italo-Grega instalando-se de novo os Gregos na cidade onde permaneceriam até 1941 altura em que foram atacados pelos Nazis Alemães que também ali se instalaram até quase ao final da II Guerra Mundial.
Durante o período das sucessivas ocupações a cidade começou a tornar-se num centro de resistência comunista face à ocupação da Albânia, com o Partido do Trabalho Albanês a ser ali fundado no ano de 1941, altura em que o futuro ditador albanês Enver Hoxha trabalhava ainda como professor na escola francesa da cidade após ali ter sido também aluno

            Cemitério dos mártires comunistas no alto da cidade (esq) Monumento aos bravos comunistas de Korçe (dta)

Com o restaurar da independência da Albânia após a retirada das forças alemãs, em 1944, teve inicio o regime comunista albanês cujo impacto em Korçë não foi muito diferente do que sucedeu no resto do território albanês. Contudo a luta de Hoxha contra a classe alta de Korçë revelou-se um pouco injusta porque tinha sido esta a principal opositora às ocupações Nazi Alemã e Fascista Italiana de que a cidade tinha sido vitima.
Após 1990 Korçë foi uma das seis cidades onde o Novo Partido Democrático conseguiu vencer todos os círculos eleitorais ao que se seguiriam as revoltas populares de Fevereiro de 1991 que muito contribuíram para o fim do regime comunista nesse mesmo ano.


Diário de Viagem

Foi num pequeno e muito frio dia de Março que cheguei à praça central da cidade de Korçë, por isso a minha primeira visão da cidade foi a enorme igreja Ortodoxa da cidade.
Apesar de Korçë ser uma cidade maioritariamente Cristã, existe também na cidade uma comunidade sunita que tem como local de culto a Mesquita Mirahori, construída no Século XV durante a ocupação Otomana, que é uma das mais antigas de toda a Albânia

                                             Em cima: Fachada principal e Torre da Igreja Ortodoxa de Korçe
                                      Em baixo: Mesquita Mirahori (esq) Interior da igreja Ortodoxa de Korçe (dta)

Uma das maiores "atracções" da cidade é o seu frenético bazaar onde abundam os produtos frescos e o tradicionalismo de uma vida ainda bastante rural.

                                             Várias fotografias tiradas na zona do bazaar da cidade de Korçe

A mais antiga fábrica de cerveja da Albânia situa-se nesta cidade e ao seu lado existe também uma cervejaria com o mesmo nome onde se pode degustar a cerveja da cidade.

                                                  Cervejaria e fábrica da cerveja da cidade, Korça desde 1928


Durante o inverno a cidade de Korçë é conhecida por ser a cidade mais fria da Albânia talvez por isso não houvesse muita gente nas ruas, à excepção da área do bazaar que mesmo assim também não estava muito cheio.
         Em cima: Fotografias de diversos pontos da cidade durante a manhã / Em baixo: Zona do Bazaar durante a manha

O dia terminou com uma subida à parte alta da cidade onde se encontra o cemitério dos mártires comunistas. Aqui a vista sobre toda a cidade de Korçe faz com que valha a pena fazer a pé esta difícil subida.

                               Rua que leva à parte alta da cidade (esq) Fotografia tirada da parte alta da cidade (dta)


Como Chegar

Velho autocarro em Korçe
Cheguei à cidade de Korçe vindo de Tirana através de uma Minivan. Contudo apesar de ser um percurso de apenas 180 quilómetros a sua duração é de cerca de cinco horas.
Existe ainda a opção Autocarro que é mais económica e confortável mas bem mais lenta, visto que a juntar à antiguidade dos autocarros à ainda as dificuldades da estrada em si. Trata-se de um percurso muito montanhoso em estradas perigosas e por isso muito demorado.